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Educação, a triste realidade brasileira

Universidades baixam nível de ensino e geram candidatos despreparados

Não há como negar: o acesso à educação aumentou. Mas que tipo de educação? Segundo especialistas, estamos caminhando bem na quantidade e muito mal na qualidade.

 O Jornal Nacional está exibindo, nesta semana, reportagens especiais sobre as causas e as consequências da falta de mão de obra qualificada no Brasil. Nesta terça-feira (14), o repórter José Roberto Burnier aborda o nível de conhecimento dos candidatos a emprego que saem das universidades.

Essa tem sido a dura rotina do estudante Iomar Guimarães em São Paulo: seu dia a dia se divide entre procurar trabalho e estudar. Estudar para ele é tentar recuperar o que ficou para trás. Iomar fez os ensinos Fundamental e o Médio em escola pública.

“Era difícil, porque muito barulho. O pessoal não respeitava professor, os professores queriam ensinar e todo mundo que queria aprender às vezes não conseguia, porque às vezes a falta de respeito de muitos alunos”, conta ele.

Aluno do primeiro ano de publicidade, Iomar foi reprovado em três exames de seleção.

“Você chega, todo mundo começa a falar: ah, morei fora, estudei em tal universidade. Você começa a dar uma desanimada, porque você para e pensa: eu sou inferior a esses caras, por questões de ensino mesmo”, acrescenta.

Os últimos dados do Ministério da Educação mostram que entre 2001 e 2010 o número de alunos matriculados em universidades mais que dobrou. Hoje, são quase 6,4 milhões estudantes. Não há como negar: o acesso à educação aumentou. Mas que tipo de educação?

“Existe certo conluio entre faculdades de má qualidade e alunos que buscam diploma. Alguns porque não têm condições de fazer um ensino puxado naquele nível, porque já trazem deficiências anteriores. E outros porque não têm condições de ficar muito tempo numa faculdade, ser reprovado duas ou três vezes. Eles querem passar e conseguir o diploma”, aponta José Pastore, professor de Relações do Trabalho da USP.

Estamos caminhando bem na quantidade e muito mal na qualidade. É estarrecedor o resultado do indicador de alfabetismo funcional, que mede a capacidade das pessoas de ler, entender o que leem e de fazer as operações básicas de matemática.

Dos alunos que concluem o Ensino Superior, 38% não são plenamente alfabetizados. Entre os que concluem o Ensino Médio, esse número sobe para 65%.

Isso criou um sistema perverso. Muitas escolas baixaram o nível de seus currículos ou criaram aulas de reforço para buscar o aluno que veio mal preparado da etapa anterior.

“Tornamos o curso universitário quase que um curso preparatório, e não mais um curso de formação. Ao fazer isso, o que acontece: acabamos exigindo hoje que a pessoa que termina um curso universitário e se sente completamente impotente para resolver os problemas sérios que aparecem no seu dia a dia, que ela tenha que fazer um curso de especialização”, explica Luiz Carlos Cabrera, professor da FGV de São Paulo.

O professor, que também é um caçador de talentos no mercado de trabalho, explica que é por isso que sobram vagas para quem é, de fato, preparado. Uma pesquisa da Fiesp mostra que 82% das empresas paulistas têm dificuldade para encontrar mão de obra qualificada.

“Se a gente não diminuir a régua, se a gente não diminui a nota de corte, a gente não contrata ninguém”, reforça a recrutadora Eliane Figueiredo. Se antigamente eu avaliava dez pessoas para fechar uma vaga, tem vagas que a gente chega a falar com 40 pessoas, com 80 pessoas.”

Para preencher 11 vagas de engenheiro de uma fábrica de cimento, três mil pessoas se mostraram interessadas no início. Os recrutadores querem saber primeiro, de uma turma de finalistas, se o candidato tem um bom raciocínio lógico, se consegue trabalhar em grupo. O que faltar de conhecimento específico, que a faculdade não deu, a empresa complementa.

“O recém-formado chega na empresa. Se não houver um programa de treinamento muito intensivo para ele desenvolver a sua profissão, não tem como ele assumir logo a responsabilidade”, opina o gerente industrial José Maia Barreto.

Sabendo que precisa investir na formação do novo funcionário, um banco dá preferência para pessoas pró-ativas, aquelas dedicadas, com iniciativa e capacidade de superar dificuldades.

“Pessoas que têm um potencial muito grande, nem sempre com acesso a uma boa escola, mas pessoas que têm muita vontade de fazer, realizar”, diz Marcelo Orticelli, diretor de Recursos Humanos.

Qualidades que colocaram a estudante de direito Karine Cézar Peixoto no departamento jurídico do banco.

“Há quem diga que é sorte. Sair de uma escola pública e estar aqui, onde estou hoje. Talvez seja sorte, mas se eu não tivesse preparada, eu conseguiria da mesma forma?”, reflete a estagiária.

Esse é o caminho que Iomar quer seguir. Superar e vencer.

“Não é porque eu perdi hoje que amanhã eu não posso conseguir. Porque eu tenho aquele objetivo: crescer e conseguir o que eu quero”, conclui.

Fonte: G1

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